Deus é amor

Um relato sobre a Comunidade Cidade de Refúgio, igreja evangélica que aceita LGBTs


O relógio marcava 18h30 de um domingo qualquer. Um som alto já animava o número 1019 da Avenida Jorge Casoni. Um pequeno salão de duas portas abriga pouco mais de 30 cadeiras e um altar. É a Comunidade Cidade de Refúgio (CR) de Londrina.

À primeira vista parece uma igreja evangélica qualquer. Fiéis empunhando a Bíblia, testes de som e abraços calorosos nos irmãos que iam chegando. Um único detalhe: a maioria dos frequentadores da Cidade de Refúgio é homossexual.

Um folheto dizia “Hoje temos um Refúgio, onde podemos adorar ao Senhor sem máscaras”.

Eliane Ferreira da Silva e a mulher, com quem mora há 3 anos, são as atuais líderes da organização que chegou em 2013 a Londrina. A sede nacional, em São Paulo, foi fundada em 2011 pelas pastoras Lanna Holder e Rosania Rocha. Desde então, sete igrejas da denominação foram abertas em cinco estados diferentes.

Eliane se incomoda com o termo “igreja gay”. Ela explica que a CR é uma igreja “como qualquer outra”. A diferença é que todos são bem-vindos, inclusive homossexuais. “Existem heterossexuais frequentando o espaço. É uma igreja ‘inclusiva’, não ‘exclusiva’”, afirma.

Ela conta que cresceu em uma igreja evangélica tradicional, onde precisava viver no armário para garantir a boa convivência com os irmãos. Um dia, uma amiga indicou a CR. Mesmo com medo do preconceito, aceitou conhecer o culto. Hoje é presbítera da comunidade.

Todos os domingos, Luiz Ricardo, de 23 anos, vem de Rolândia para o culto às 19h. Participa da CR desde o início das atividades em Londrina. Também cresceu dentro de uma igreja evangélica tradicional, o que fazia com que precisasse reprimir sua sexualidade.

Algumas mães e pais levam seus filhos ao culto. Luiz acredita que isso é extremamente benéfico. “Eles terão mentes abertas no futuro”, ressalta. Na opinião dele, as crianças devem ser ensinadas desde o início a respeitar as diferenças.

O estudante de direito reconhece que a pauta LGBT avançou nos últimos anos, mas pensa que ainda há um longo caminho. Sonha com o dia em que não haja a necessidade adicionar o termo “inclusivas” às igrejas que aceitem os fiéis sem julgamentos.

Para Eliane, a não-aceitação plena de homossexuais pelas igrejas tradicionais se dá por puro preconceito. Ela acredita que a CR não é bem vista pelos fiéis de outras igrejas por praticar a “teologia inclusiva” – que faz uma interpretação histórica da Bíblia para entender determinados trechos frequentemente utilizados para condenar homossexuais.

A poucos passos da CR se encontra uma filial da maior denominação evangélica do Brasil, a Assembleia de Deus. Um prédio alto, bonito, bem iluminado. Para os fiéis da Cidade de Refúgio, porém, não há nada melhor do que um espaço em que possam ser quem realmente são, sem máscaras.


Sexualidade ainda é tabu

Edson Elias de Morais, mestre em Ciências Sociais e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), avalia que a sexualidade e a relação com o corpo ainda são tabus para as religiões cristãs “convencionais”. Ele analisa que, para o catolicismo, as relações sexuais devem ter a procriação como único fim, sem levar em conta o prazer. As igrejas protestantes, por outro lado, aceitam que haja o prazer, desde que ocorra dentro do casamento.

A homoafetividade, assim, seria vista como pecado, degeneração ou subversão dos valores cristãos. Em síntese, uma ação diabólica. Isso justificaria a defesa, por parte de algumas denominações, das terapias de reversão da homossexualidade – um eufemismo para a famosa “cura gay” (embora haja o consenso de especialistas de que ela não existe).

Segundo o professor, as igrejas devem ter o direito de se posicionarem dentro de seus domínios. O problema é quando o discurso sai dos limites dos templos religiosos e o espaço público é contaminado com a intolerância ao diferente.

Edson reconhece a grande influência de padres e pastores na opinião dos fiéis. Em um mundo cada vez mais complexo, o direcionamento dos “representantes de deus” torna-se muito poderoso. Demonstração disso é o fortalecimento da chamada “Bancada da Bíblia” no Congresso Nacional. Justificativas religiosas têm sido utilizadas para interferir na legislação pública.


Dois anos do “beijo gay” no horário nobre

A famosa cena entre os personagens Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) na novela Amor à Vida completou dois anos ontem (31). O primeiro beijo entre duas pessoas do mesmo sexo no horário nobre da TV Globo repercutiu nas redes sociais. Em 2005, o beijo entre Junior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro) foi vetado horas antes de ir ao ar no capítulo final da novela América. Isso mostra a evolução da pauta LGBT em poucos anos.

Apesar da crescente aceitação da homossexualidade, projetos como o Estatuto da Família avançam no Congresso. O PL 6583/13 determina que “família” é somente aquela formada a partir da união entre um homem e uma mulher e seus descendentes. A lei impactaria diretamente no exercício da cidadania por parte dos homossexuais.

No Brasil, a cada 28 horas, um LGBT foi assassinado devido à orientação sexual em 2013. A homofobia ainda não é crime tipificado no país.


Bruno Nomura
brunog.nomura@gmail.com


Deus é amor Deus é amor Reviewed by Bruno Nomura on segunda-feira, fevereiro 01, 2016 Rating: 5

2 comentários:

  1. Eu e meu esposo fazemos parte desta denominação . Amamos esse lugar onde podemos ser realmente o que somos , sem discriminação .Fazia parte de uma igreja tradicional onde eu fui forçado a procurar a cura .mas hoje estou muito feliz e completo em ter uma lagar que me aceita...

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  2. Tive o prazer de morar em Londrona no ano 2014 e pude congregar com os amados da CR....Hoje moro em São Paulo e faço parte da Cr sede aqui em SP....é uma bençao, poder adorar ao Senhor sem máscaras e sem medo...pois o véu se rasou e hoje temos acesso direto ao Pai....Toda honra e Glória ao Senhor...Amo monhas Pastoras e minha Igreja.

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