Doce como Mel

Revista Um entrevista Melissa Campus, ativista transexual londrinense


Melissa em evento organizado pelo 2º ano de Relações Públicas da UEL.
Foto: Bruno Nomura


Melissa Campus – “Mel” para os mais íntimos – chega sorridente à sala de eventos do Centro de Educação, Comunicação e Artes da Universidade Estadual de Londrina (CECA-UEL). Ela foi uma das painelistas do evento “Não aceita que dói menos”, organizado pelo 2º ano do curso de Relações Públicas no último dia 28. O objetivo era debater a violência contra a mulher e a população LGBT.

Poucas pessoas teriam tanta propriedade para falar do assunto. Duas semanas antes, no dia 12 de janeiro, Melissa sofreu uma agressão em plena rodoviária na madrugada londrinense. Ao voltar de viagem e subir em um táxi, ela começou a ser agredida com socos e chutes por um homem que a acusava de ter roubado sua mala. Ninguém, nem mesmo o taxista, decidiu ajudá-la. O caso foi parar na delegacia, onde a humilhação continuou: no boletim de ocorrência, não houve registro de sua identidade de gênero – Mel é mulher trans – e do nome social, direito de travestis e transexuais desde 2014. O preconceito continuou no IML: conseguiu o registro fotográfico das lesões somente 10 dias depois das agressões.

Melissa parecia muito à vontade no evento, sempre cumprimentando ou conversando com alguém. Começou sua fala bem-humorada, mas não conseguiu segurar as lágrimas ao relembrar a agressão. Ela leu uma moção de repúdio ao episódio (leia aqui) assinada por mais de 50 entidades brasileiras.

No dia seguinte, 29 de janeiro, Dia da Visibilidade Trans, Melissa recebeu a Revista Um para uma entrevista. O foco era sua história de vida e algumas reflexões a respeito do ativismo LGBT.


Revista Um: Como foi o seu processo de descoberta e aceitação da transexualidade?

Melissa Campus: Realmente é um processo de vivência, né? Eu só fui realmente me encontrar na fase adulta. Na infância eu aprendi que tudo o que desejava era proibido, começando pelas bonecas, brinquedos, brincadeiras... E na adolescência tive dificuldade de me encontrar em um certo grupo. Eu não me identificava com os grupos de meninas, nem de meninos. Naquela época ainda não se falava de diversidade de gênero. Era toda uma invisibilidade que começou a mudar a partir de 1995, quando surgiram os primeiros grupos de travestis e transexuais. Eu me identifiquei como trans logo que descobri que não era apenas uma travesti. Foi lá pelos 25 que eu realmente disse: “Não, eu sou uma mulher trans”. Comecei sendo gay na minha adolescência, daí não me identifiquei. Aos 18 já comecei minha transformação, me identifiquei como travesti, aí vi que eu era diferente da maioria das travestis. A partir daí que me identifiquei como trans. Eu sempre me inspirei muito naquela mulher independente, forte, uma mulher que não depende de uma figura masculina. E, enfim, acabei construindo esse perfil feminino que hoje é a Melissa.


Foto: Bruno Nomura


UM: Em entrevista ao programa Aqui Tem Jovem da UEL FM (ouça aqui), você disse que a decisão de sair de casa foi sua. Infelizmente é comum que os próprios pais expulsem as filhas e os filhos transexuais de casa, então foi uma situação um pouco diferente no seu caso. Como foi isso?

MC: Para eu me entender enquanto trans, tive que ter o meu próprio espaço, minhas próprias convicções. Ficou bem claro na minha família de que não havia espaço para essa discussão, para essa mulher que estava surgindo. Meu pai não foi carrasco de dizer “não quero você como meu filho, sai daqui”. Ele simplesmente disse: “Você não vai viver isso perto de mim, eu não vou aceitar”. Eu tinha acabado de chegar da clínica de recuperação [para homossexuais, já que na época a homossexualidade era considerada doença] em que tinha sido internada aos 16. A igreja convenceu minha família de que eu era doente e que havia possibilidade de cura – então considero que a minha família também foi enganada, também foi vítima da falta de informação. Lembro que eu falei para ele: “Eu quero três meses para me organizar e sair daqui”. Eu nunca tive problemas com o fato de ser mulher. Não importava se essa mulher tivesse que ser uma prostituta, uma pessoa que estivesse à margem da sociedade, contanto que ela fosse mulher. Meu pai não acreditou que eu poderia sair de casa, me tornar esta pessoa, ele teve que ver para crer. Depois de anos de turbulência, no final nós conseguimos nos acertar. Ele viveu comigo os últimos anos da vida dele. Pediu perdão por não ter conseguido compreender tudo que havia acontecido na minha vida. Eu não tinha que perdoá-lo porque ele era meu pai. Eu disse que sentia muito por tê-lo ferido no momento em que tive que passar por cima dele.


UM: Depois que você saiu de casa, como ficou a sua vida?

MC: Eu tive que iniciar minha construção feminina. Saí caricata de casa aos 18 para os 19, ainda começando meu processo de hormonização. Fui parar na prostituição. Perdi meu emprego quando comecei o processo de transformação, já não tinha mais tempo para a escola porque eu precisava sobreviver e ainda estava pensando na dificuldade da minha família. Lá da prostituição eu ainda consegui ajudar minha família, tirar alguma coisa desse processo que é muito humilhante, mas que era a única coisa que tinha a partir do momento que eu perdi tudo. Procurei uma ONG e disse: “Olha, eu saí de casa agora, estou começando minha transformação, preciso de ajuda. Tenho que ser prostituta porque não tenho outro serviço, então queria saber como posso ser uma prostituta boa (risos) e como posso escapar dessa epidemia de AIDS, como eu posso fazer para me proteger, para não sofrer mais violência”. Então logo que eu saí de casa já conheci a militância. Aí comecei a entender esse universo que é um universo paralelo socialmente, que é um universo criado pelo social que exclui. Tudo que é excluído aqui vai parar naquele universo. E eu me considerava apenas mais uma peça. Eu me coloquei nesse universo como um objeto mesmo a ser comercializado. E soube comercializar (risos).


UM: Como você enxerga o ativismo LGBT em Londrina?

MC: Londrina sempre foi um pouco arcaica com relação à questão dos direitos da pessoa LGBT, então nós, pessoas trans, sempre estivemos na linha de frente da militância na cidade. Nós estamos agora começando a ter uma movimentação social contundente. Ela era segmentada, em guetos, mas eu considero que era a fase do movimento. Sempre há esse problema para reconhecer o orgulho de ser LGBT. Hoje, sim, nós temos um movimento que tem orgulho de gritar “eu sou LGBT”, que não tem medo de falar. A gente tem um cenário favorável para estar reivindicando direitos, políticas públicas realmente efetivas, transversais (porque elas entram transversalmente em outras políticas). E quanto à população trans, ela sempre esteve à frente desse processo porque ela nunca pôde esconder, ela sempre teve que enfrentar, porque o processo de transformação não permite que você se esconda.

A gente está nessa Londrina provinciana, mas está aqui para ficar. Nós temos que trabalhar esse espaço, senão como a gente permanece? Claro que eu sonho com o Rio de Janeiro, com a Bahia, com os pontos mais incríveis do nosso Brasil e até da Europa (porque eu pretendo morar na Itália, voltar e ficar de vez). Mas eu quero deixar Londrina do jeitinho que tem que ser, porque não é achismo. Eu sinto na pele a necessidade. Porque, todo dia, eu vejo que há muita coisa para se fazer, para se trabalhar, até que haja uma sociedade que saiba aceitar a diferença do outro e da outra. Eu acho que nós estamos ainda começando, nossos avanços são tão poucos (mas orgulhosos!), incrivelmente suados e calejados, porém ameaçados com os retrocessos que a gente tem vivido ultimamente.


UM: Você é fundadora do coletivo Elitytrans. Como ele surgiu e qual é o objetivo?

MC: O Elitytrans surgiu logo que cheguei da Europa em 2009 e começou aquela série de assassinatos [em Curitiba]. Comecei a questionar por que não se fazia nada, por que a violência era tão naturalizada. “Mais uma travesti morta”, “mais outra travesti morta” e era isso que falava nos jornais. E ainda da pior forma possível, “o” travesti. Nem na hora da morte as pessoas respeitam. É a travesti, ela está vestida de mulher, tem a identidade feminina, então respeite esta mulher. Os profissionais de comunicação sempre tentando tirar a dignidade de alguma forma, sabe? A militância começou dessa indignação de ver tudo isso e as pessoas acharem natural. Aí eu disse: “Vamos nos reunir, abrir um grupo, uma ONG, qualquer coisa para poder responder por essa população”. Mas só fomos conseguir articular isso em 2012, quando eu consegui unir uma diretoria, com uma condição: que nós trabalhássemos da forma que nós achássemos melhor. Que nós não tivéssemos que depender de projeto aprovado para ter rabo preso com município e nem com ministérios, para poder denunciar, falar e intervir. Nós acolhemos, encaminhamos a quem dá assistência. A gente apanha, sofre, ri, se diverte, mas estamos sempre fazendo representação política porque nós queremos políticas públicas. A gente vem para trabalhar questões fundamentais como essa da prostituição, dos estigmas, a questão da educação e a formação profissional, a reinserção social (e a inserção, muitas vezes, porque muitas delas nunca fizeram realmente parte da sociedade). São como crianças que a gente tem que proteger, cuidar, preparar para soltar. Porque, senão, a pressão social e o preconceito...

Saúde integral é tudo. Eu não vou ter saúde se eu não tiver casa para morar, dinheiro para pagar minhas contas, alimentação. Eu não sei por que a sociedade, principalmente esses fundamentalistas religiosos que estão dentro da Câmara de Vereadores, acham que a gente não tem direito a isso. Eles querem nos ver definhar, mas eles vão ter que nos aturar porque a gente vai brigar pelas nossas pautas. Então eu acho que é para isso que o Elityrans veio. Veio da indignação de todas essas pessoas que se juntaram e disseram “não, isso tem que mudar”.  


Melissa em ato pelo Dia da Visibilidade Trans no Calçadão de Londrina.
Foto: Bruno Nomura


UM: As portas do mercado de trabalho estão abertas para as pessoas trans?

MC: Fora duas trans que eu conheço, a gente não tem transexuais e travestis no mercado de trabalho formal ainda em Londrina. Mas a gente considera que esse é o resultado de um processo que segregou essa população. Agora em 2014 que se ouviu falar de nome social no MEC. Em 2015 houve um aumento de 172% de participação de pessoas transexuais e travestis no ENEM. Considero que essa população conseguiu subir no bonde agora e vai se preparar para entrar no mercado de trabalho formal. Como eu também começo agora com meu supletivo, depois passo para o cursinho e vou tentar a faculdade de Artes Cênicas, porque eu acho que vai ser a minha cara.


UM: Após a agressão que você sofreu no último dia 12, várias mensagens de solidariedade foram publicadas nas redes sociais. A moção de repúdio foi assinada por diversas organizações Brasil afora. Você imaginava que haveria toda esse apoio?

MC: Se eu dormisse hoje, eu acho que dormiria feliz. Primeiro que ver toda essa automovimentação é uma coisa incrível, né? A gente pediu isso quando nós chegamos, quando o Elitytans veio. Esse jardim floresceu. E essa era a minha intenção. É o resultado de todo esse trabalho. Hoje, quando eu vejo essa movimentação, as pessoas indignadas, na minha pele, sentindo minha dor, aí quando eu chego lá [no evento “Não aceita que dói menos"], cansada, e todo mundo me aplaude, eu falo: “Meu deus, eu não mereço tudo isso” (risos). Eu tenho muito orgulho, sabe? Olha, nós temos um movimento LGBT de primeira categoria dentro de Londrina, viu? A gente só precisa manter e fazer isso avançar.

Mesmo que a Melissa vá para a Europa, eu acho que nunca vou conseguir sair do cenário político porque eu vivo para isso. Mas eu acho que está na hora de dar espaço para outras representatividades, para que haja outras capacitações. O movimento não pode ser feito de Melissa, de Christiane e de mais duas ou três. As transexuais e travestis têm que ser capacitadas. Tragam seus seminários, conferências, congressos, debates, oficinas e se capacitem porque a gente precisa estar preparada para o que há por vir.


UM: O que há por vir em 2016?

MC: Precisamos lutar pelo nosso conselho deliberativo municipal LGBT, pelo nosso centro de atendimento à população LGBT, pela secretaria municipal de direitos humanos, para que o nome social e as orientações sexuais e identidades de gêneros sejam reconhecidas em todos os órgãos públicos.

Vamos nos capacitar, sair dos armários, pensar no futuro que nós queremos para nós, pensar no que queremos construir para nós, a sociedade que a gente quer. A gente tem que cuidar da nossa raiz que é londrinense. Eu espero que com tudo isso, com todo esse limão, que a gente aprenda que ser militante é denunciar, é não ficar calado, é se indignar e com a indignação proporcionar mudanças contundentes.

Até enquanto a gente aguenta, porque cansa, viu? (risos)


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Pouco mais de uma hora depois, Melissa esteve no Calçadão de Londrina para um ato pelo Dia da Visibilidade Trans e em repúdio à agressão sofrida por ela. Vários amigos compareceram.

Azul, rosa e branco são as cores da bandeira do orgulho trans.


Foto: Bruno Nomura


EXTRA! Melissa reflete sobre o amor para pessoas trans, contando um pouco mais sobre sua trajetória pessoal.




Bruno Nomura
brunog.nomura@gmail.com
Doce como Mel Doce como Mel Reviewed by Bruno Nomura on segunda-feira, fevereiro 08, 2016 Rating: 5

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