Assaí, terra do sol nascente

83 anos e 16 mil habitantes: conheça Assaí, município mais japonês do Brasil


História viva

Naomi Nissikawa tem 80 anos. Ainda não havia completado 10 quando chegou a Assaí, “terra do sol nascente” (em tradução livre do japonês). Hoje, segundo o IBGE, a localidade tem pouco mais de 16 mil habitantes. Destes, 12% são descendentes de japoneses – é o município com a maior porcentagem de nikkeis do Brasil.

A família de Naomi recebeu um convite de parentes e saiu do interior de São Paulo para tentar a sorte nas desconhecidas terras do norte do Paraná. Assaí ainda engatinhava. O café e o algodão movimentavam a economia e renovavam as esperanças dos que se aventuravam por aquela região.

Como precisava trabalhar na lavoura, Naomi não frequentava a escola. Certa vez, ouviu de um professor que poderia aprender a língua japonesa escrevendo haicais, já que eles exigem profundo conhecimento dos ideogramas. Autodidata, começou a praticar. A escrita se tornou um hobby. Nunca mais parou.

Dos 80 haicaístas de Assaí, Naomi é o único sobrevivente. Várias de suas criações foram reconhecidas por publicações japonesas. Ele relata que não pensa muito para escrevê-las: o segredo é estar preparado com papel e caneta para os momentos em que a inspiração vem à tona.

Em 2013, Naomi conquistou o 2º lugar entre os mais de 700 cantores de karaokê no 28º Concurso Brasileiro da Canção Japonesa. Ele participa das competições há décadas, desde antes do surgimento do karaokê, quando bandas tocavam o acompanhamento sonoro ao vivo. / Foto: Bruno Nomura

O passado

Entre as décadas de 1940 e 1950, Assaí ficou conhecida como a “capital do ouro branco”, uma referência ao algodão. O auge de seu cultivo foi o momento de maior prosperidade do município, que atraía um grande número de trabalhadores na época das colheitas. A economia era baseada na agricultura e a população era predominantemente rural.

Em Assaí, desde o início, a zona rural foi dividida em seções. Ao longo de sua história, existiram ao menos 12. Com a presença de um grande número de famílias e sob influência direta da cultura japonesa, várias delas mantinham um salão social (o kaikan) e uma escola de língua japonesa – a boa educação era uma das maiores preocupações dos imigrantes. Formavam-se, assim, associações rurais de moradores.

A prática de esportes era comum. A Liga das Associações Culturais de Assaí (LACA) promovia o rikujou, campeonato de atletismo que reunia equipes das seções e dos moradores da zona urbana. Confraternizações de início e fim de ano (bounenkai e shinnenkenkai) e gincanas (undoukai) faziam parte do cotidiano das associações.

O sistema de seções começou a declinar, aos poucos, com a crescente mecanização do trabalho agrícola e do consequente êxodo rural. A queda brusca do número médio de filhos também foi relevante. A crise na economia brasileira e o fenômeno dos decasséguis aceleraram ainda mais o processo. Assaí sofreu um forte declínio populacional nas décadas de 1980 e 1990. Vários daqueles que tentaram a sorte no Japão e retornaram nas décadas seguintes escolheram cidades maiores, como Londrina (a 43 quilômetros de distância). Muitas associações não resistiram.

As perspectivas não são as melhores. Com sacrifício, algumas seções ainda mantêm determinadas atividades. Mesmo a Sociedade dos Amigos de Assaí (SAMA), que congrega moradores da zona urbana, apresenta dificuldades. A maioria dos associados ativos é ou se aproxima da terceira idade. Não há interesse por parte dos jovens já que, além de estarem cada vez menos conectados à cultura japonesa devido à miscigenação, geralmente acabam deixando a cidade para buscar o ensino superior ou melhores colocações de trabalho em outros centros.

A Seção Bálsamo completa 83 anos em 2016. O salão social, totalmente reconstruído em 1981, não é mais utilizado. A escola japonesa foi demolida. É mais um exemplo do declínio das associações rurais em Assaí. / Foto: Bruno Nomura

O presente

Sábado, 8 horas. Manhã ensolarada na sede da SAMA. Da estrada já era possível observar a movimentação no campo de gateball – mais conhecido como “gueetobôru” pelos praticantes, todos descendentes de japoneses.

O esporte foi criado no Japão em 1947 e se popularizou entre a terceira idade, principalmente porque o nível de exigência física é baixo. Dois times são formados: branco e vermelho. Basicamente, o objetivo é fazer com que as bolas atravessem os três arcos (os gates) da quadra e, no fim, atinjam o pino central.

Alguém desacostumado pode achar a atividade bastante peculiar. Em Assaí, todas as negociações estratégicas são feitas em japonês. Enquanto alguém aconselha o jogador da vez a mirar a bola 2, outra pessoa rebate e pede que se acerte a bola 4. O jogo do convencimento se estende por mais alguns segundos. Ouve-se o barulho do taco. As reações variam. A rispidez de algumas delas pode até assustar. Porém, logo tudo volta ao normal. Faz parte do jogo.

O presente da comunidade japonesa de Assaí: esportes como o gateball movimentam o pessoal da terceira idade. / Foto: Bruno Nomura

O futuro

Ao conversar com os jovens nikkeis assaienses, é muito comum perceber a valorização da educação presente na cultura japonesa. Com frequência, o desejo de chegar ao ensino superior é mencionado. De um modo geral, desde cedo, as crianças são levadas a associar a ascensão social a uma boa formação escolar. Essa mentalidade é transmitida aos filhos e o ciclo continua. Isso explica o salto, em pouco tempo, na qualidade de vida de muitos descendentes de japoneses, visto que inúmeras famílias de imigrantes chegaram ao Brasil praticamente zerados. O alto índice de descendentes em universidades demostra a força dessa cultura da educação.

Representante da 3ª geração de imigrantes japoneses (sansei), Rosana Yukari Marumo Hayashi tem 18 anos e cursa Administração na Universidade Estadual de Londrina (UEL), de onde vai e volta nos dias de aula. Sempre morou e estudou em Assaí. Planeja deixar a cidade futuramente para buscar mais oportunidades de crescimento pessoal e profissional em outras localidades.

Rosana vê Assaí como um lugar com poucas perspectivas. Quando deixá-lo, cogita retornar ao município somente na terceira idade. Mesmo assim, diz que pretende, de alguma forma, ajudar no desenvolvimento da cidade com seu trabalho.

A também sansei Bruna Sayumi Ueno Rocha tem 16 anos e atualmente está no 3º ano do ensino médio. Interessa-se pela área da saúde, mas ainda não sabe qual curso tentará nos vestibulares. Mesmo sem condições de frequentar um cursinho, ela exalta a importância do ensino superior. “É importante ter um diploma, procurar um conhecimento mais amplo”, afirma.

Quando ingressar em uma universidade, Bruna pensa em deixar a cidade para buscar independência. Ela acredita que há poucas opções de emprego em Assaí, mas que é um bom lugar para viver. “É tranquilo, não existe tanta criminalidade como em outros lugares”, pontua.

Para Bruna, Assaí representa um pedacinho do Japão. Ela deixou o Brasil aos 8 meses e viveu na terra do sol nascente durante 9 anos. Assim, a presença da cultura japonesa em Assaí foi fundamental para sua adaptação, quando retornou ao país. A saudade do Japão foi menor no município mais japonês do Brasil.

O futuro, da esquerda para a direita: Rosana (18 anos), Gabriel (18), Alissa (16), Vinicius (18), Leina (17), Gustavo (18), Leticia (16), Guilherme (18), Bruna (16), Alisson (14) e Carolina (17). / Foto: Bruno Nomura

O sol renasce a cada dia

O Memorial da Imigração Japonesa de Assaí começou a ser construído em 2009. É uma iniciativa da Prefeitura Municipal e do Ministério do Turismo, de onde sairia a maior parte dos recursos. Contudo, ocorreram várias paralisações ao longo dos anos e o popularmente conhecido “Castelo” encontra-se atualmente em meio a um impasse de verbas.

Enquanto isso, Naomi afirma sentir o peso da idade. Apenas três anos mais novo que Assaí, viu de perto as transformações da cidade ao longo das décadas. Deixou-a apenas para trabalhar com a esposa como decasségui no Japão, entre as décadas de 1980 e 1990.

Fala o português com dificuldade: sente-se à vontade mesmo com a língua japonesa. Casado há 56 anos com Seiko Nissikawa, tiveram cinco filhos e três netos. A casa onde moram, a poucos metros do Castelo, fica mais cheia no Natal, quando a família se reúne para comemorar mais um ano que se passou.

Hoje, Naomi tranquilamente se ocupa com o karaokê, haicai e as flores de seu amplo jardim. Assaí, há poucos anos, recebeu sua primeira universidade de ensino à distância. Ambos caminham a passos lentos. Sem saber aonde chegarão.

Naomi e o Memorial da Imigração Japonesa: tentativa de preservação da história que ele e tantos outros imigrantes e descendentes viveram em Assaí. / Foto: Bruno Nomura

*Essa é a segunda publicação da série "Cultura Japonesa em Londrina e região: fotodocumentário" e foi adaptado de um trabalho apresentado à disciplina de Fotojornalismo da Universidade Estadual de Londrina.



Assaí, terra do sol nascente Assaí, terra do sol nascente Reviewed by Bruno Nomura on segunda-feira, março 07, 2016 Rating: 5

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