“Não vai ter golpe”: grupo londrinense se mobiliza pela defesa da democracia

Crise política foi tema de debate; manifestação em defesa da democracia está marcada para a próxima quinta

Texto: Marcelo Silva e Bruno Nomura

Cerca de 140 pessoas participaram, na noite da última quinta-feira (24), do Segundo Ato em Defesa da Legalidade Democrática, na sede da APP-Sindicato, em Londrina. O evento, iniciativa espontânea de professores da Universidade Estadual de Londrina (UEL), promoveu a discussão sobre o conturbado cenário político do país e a defesa da democracia.


Na mesa de debate, Carlos Roberto Scalassara, advogado e mestre em Direito, Estado e Cidadania, destacou os avanços dos últimos treze anos no combate à corrupção no Brasil. Para ele, iniciativas como a Lei da Ficha Limpa, a reforma do Poder Judiciário e os investimentos na Polícia Federal trouxeram mudanças significativas que transformaram o combate à corrupção em política pública. “A população desconhece essas mudanças e vê a corrupção como parte de quem, na verdade, está se empenhando em combatê-la”, afirmou.

Scalassara questionou ainda o apoio oficial da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) ao impeachment da presidente Dilma Rousseff. Para ele, as justificativas usadas para defender o processo são frágeis, já que nenhuma delas constitui crime: “A OAB foi contaminada pelas contestações vindas de setores econômicos, políticos e midiáticos”.

Interesses externos

Jefferson Rodrigues Barbosa, doutor em Ciências Sociais e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), denunciou a influência de organizações internacionais nas recentes manifestações contra o governo. “Grupos empresariais norte-americanos têm redes de atuação em diversos países, envolvendo jornalistas e militantes em defesa do liberalismo econômico e do combate do que consideram como uma ameaça comunista na América Latina”, declarou.

Segundo o professor, um dos grupos que encabeçam os protestos contra a presidente Dilma, o Movimento Brasil Livre (MBL), por exemplo, recebe recursos dos Estudantes Pela Liberdade, organização de cunho liberal fundada em 2008 nos Estados Unidos.

Por fim, Barbosa criticou a maneira como a população enxerga os meios de comunicação: “As pessoas absorvem as informações vindas da grande mídia como sinônimo de verdade”.

Os debatedores Jefferson Rodrigues Barbosa e Carlos Roberto Scalassara

Manifestação

Durante o debate, foi anunciada, para a próxima quinta-feira (31), uma manifestação no centro de Londrina a favor do Estado Democrático de Direito, da legalidade das investigações e da imparcialidade do Judiciário. Aos gritos de “não vai ter golpe”, o público presente – composto essencialmente por professores, ativistas sociais, sindicalistas e estudantes – comprometeu-se a participar do protesto, marcado para o dia em que o Golpe Militar de 1964 completa 52 anos.


Quando a Globo é a notícia

Com o extremo acirramento do debate político, a Globo, maior rede de televisão do país, vem sendo fortemente criticada nas redes sociais. Algumas manifestações foram convocadas nas últimas semanas para demonstrar o descontentamento com a TV – a sede da afiliada RPC de Londrina é o foco de uma delas, marcada para a próxima sexta-feira (1º).

A insatisfação com a emissora não é inédita. Durante as manifestações de junho de 2013, várias equipes da Globo foram hostilizadas e expulsas. Já no início deste mês, Galvão Bueno se viu obrigado a comentar, ao vivo, a revolta da torcida do Corinthians com o controle desempenhado pela rede sobre os horários das partidas e o monopólio da transmissão do futebol.

Ao longo de cinco décadas de existência, a Globo sempre esteve longe de ser unanimidade. Até hoje é acusada de ter sido favorecida pelo governo militar, em troca de apoio ao regime ditatorial. Durante o período, a emissora engoliu as concorrentes e se tornou líder absoluta de audiência. A omissão das manifestações das Diretas Já e a polêmica edição do debate entre Lula e Collor – que beneficiou o último às vésperas das eleições presidenciais de 1989 – também são críticas frequentes.

Manoel Dourado Bastos, doutor em História e Sociedade pela Unesp e professor de Jornalismo da UEL, critica a cobertura da Operação Lava Jato apresentada pelo Jornal Nacional. Para ele, o telejornal mais assistido do país tem sido utilizado para promover um golpe. “A Globo não faz jornalismo propriamente dito faz muito tempo. Há uma série de técnicas da organização do telejornal que fazem com que o JN funcione muito mais como um sistema de propaganda do que propriamente jornalismo”, afirma.

O professor comentou a diferença de cobertura dada a dois episódios recentes. Mesmo que não trouxessem indícios consistentes de ilegalidades, a divulgação das ligações interceptadas do ex-presidente Lula recebeu, na prática, uma edição inteira do Jornal Nacional. Por outro lado, documentos apreendidos com o presidente da construtora Odebrecht, com nomes de mais de 200 políticos, ganharam pouco mais de dois minutos. Nomes importantes como o do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), fazem parte das listas que podem indicar recebimento irregular de dinheiro. Dessa vez, o JN foi mais cauteloso: não as divulgou sob a justificativa de que o tempo seria insuficiente e que “não faria sentido escolher uns e omitir outros”. Lula e Dilma não integram a lista.

Por possuir ampla audiência, Bastos acredita que a Globo tem o poder de organizar e reorganizar o espaço público de acordo com seus interesses particulares. Trata-se, sobretudo, de uma empresa interessada no lucro.

Se antigamente havia grande concentração do poder informativo nas mãos de um único veículo, hoje existem algumas propostas mais democráticas. Bastos cita a internet como possibilidade de contraponto ao monopólio da Globo. Ele lembra a crise do modelo de jornalismo tradicional, baseado na venda de publicidade, que vem causando demissões em massa nas redações do mundo inteiro. Várias iniciativas independentes ganham espaço e viram fontes alternativas de informação. Seria a adaptação do jornalismo aos novos tempos.

Neste mês, a Globo lançou uma nova campanha ao mercado publicitário: “Dos 30 programas de maior audiência da TV brasileira, os 30 são da Globo. O 31, o 32 e o 33 também”. Sua cobertura abrange 99,37% da população brasileira. 
“Não vai ter golpe”: grupo londrinense se mobiliza pela defesa da democracia “Não vai ter golpe”: grupo londrinense se mobiliza pela defesa da democracia Reviewed by Revista Um on domingo, março 27, 2016 Rating: 5

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