UEL Sonora: A importância e os desafios do Bolsa Família

No dia 29 de junho, o presidente interino Michel Temer anunciou um aumento médio de 12,5% nos benefícios do Bolsa Família. O programa é alvo de críticas desde que foi criado, em 2003. Treze anos depois, pesquisadores e beneficiários analisam a importância e os desafios do Bolsa Família.






“Olha, numa realidade como a do Brasil, que tem mais de 50 milhões de famílias em situação de pobreza, ele é um programa fundamental, no mínimo, para combater a fome.”

“É assim que eu estou vivendo. Vou mentir para você, não. Está bem difícil minha situação. Inclusive eu estava sem nada o que comer dentro de casa.”

Sandra Regina mora há dois meses em um pequeno barraco no Conjunto Novo Amparo, zona leste de Londrina. A família vivia em uma casa alugada quando o marido dela ficou desempregado. Cinco pessoas dividem o espaço sem água e com luz improvisada. Desde que se mudou, Sandra tenta receber o Bolsa Família. O programa foi criado em 2003 pelo ex-presidente Lula e ampliou benefícios do governo anterior.

O objetivo é complementar a renda de famílias como a de Sandra, em situação de pobreza ou extrema pobreza, garantindo o acesso à alimentação, saúde e educação. Hoje, o programa atinge quase 14 milhões de famílias brasileiras. Apesar de ser internacionalmente reconhecido como modelo bem-sucedido, o Bolsa Família nunca foi unanimidade no Brasil.

O professor de Economia da UEL Sidnei Pereira do Nascimento concorda que o programa tem um papel fundamental para as pessoas de baixa renda, mas acredita que o benefício não pode ser eterno: “Eu acho que tem que incentivar, sim, tem que ajudar, sim, mas não pode criar dependência. Se você não cria instrumentos para que as pessoas saiam desse sistema, dá a impressão que é manutenção da miséria. Eu acho que aí não faz sentido. Então tem que ter o que a gente chama de porta de saída.”

Por outro lado, a professora de Ciências Sociais da UEL Silvana Aparecida Mariano relata que as pesquisas dela mostraram o contrário. Ela constatou que a participação dos beneficiários do Bolsa Família no mercado de trabalho é equivalente à da população em geral. Silvana alertou ainda para o que chamou de combinação perversa: “Em algumas leituras, isso pode estar produzindo uma armadilha da pobreza. O programa teria o objetivo de promover a ruptura com o ciclo de pobreza, mas, dada a transferência muito baixa e empregos muito precarizados, isso vai virando uma armadilha da pobreza em vez de promover a quebra do ciclo intergeracional da pobreza.”

As pesquisas da professora de Serviço Social da UEL Cassia Maria Carloto também mostraram que vários beneficiários do programa trabalham. Ela lembra que o Bolsa Família não é suficiente para acabar com a fome, mas que ajuda na alimentação de inúmeras famílias: “As limitações é: primeiro, ele teria que ser mais universal porque, realmente, muita gente fica de fora; os valores não são suficientes para acabar com a pobreza como se pensa que vai acontecer. Agora, para você acabar com a pobreza, diminuir a pobreza geracional – que é um dos objetivos desses programas – você também teria que investir em outras políticas sociais: habitação, educação, saúde, lazer, que, junto com esse programa, aí, sim, teria um impacto grande na diminuição da pobreza e na promoção da cidadania e da autonomia, principalmente das mulheres.”

Em Londrina são 16,4 mil famílias beneficiadas. O valor médio recebido por família é de R$ 160,00 por mês.

Moradora de um fundo de vale no Novo Amparo, a família de Vera Lucia Costa é uma das beneficiárias do município: “Eu compro calçado para as meninas para escola, roupa, agasalho agora, que é a precisão. Precisa de algum material no fim do mês, no meio de semana. Falta um lápis, uma borracha... Então esse dinheiro ajuda demais.”

Vera conta com a ajuda do marido porque o dinheiro do Bolsa Família não é suficiente para o sustento da casa. Ela simplifica a importância do Bolsa Família para quem precisa: “Porque tem muitas mães que precisam mesmo para comprar as coisas para os filhos. Porque muita gente aqui que eu conheço compra leite, fralda, roupa para criança... é do jeito que eu faço para as minhas, né.”

O presidente interino, Michel Temer, prometeu manter o Bolsa Família, mas o futuro do benefício é incerto. O Ministro do Desenvolvimento Social e Agrário, Osmar Terra, declarou que vai realizar um pente-fino no cadastro das famílias. A estimativa é de que até 10% dos beneficiários sejam excluídos do programa.


Bruno Nomura, para a UEL Sonora.



A UEL Sonora é uma Agência Experimental de Radiojornalismo da Universidade Estadual de Londrina. Estudantes de Jornalismo produzem semanalmente reportagens em áudio, exercitando a prática jornalística. A proposta é produzir matérias que discutam, em profundidade, temas relevantes para a região, ouvindo diferentes setores da sociedade e, especialmente, o cidadão. As rádios interessadas podem reproduzir as reportagens gratuitamente, com a única condição de mencionar os créditos de quem as produziu. (Mais informações em uelsonora.tumblr.com)



UEL Sonora: A importância e os desafios do Bolsa Família UEL Sonora: A importância e os desafios do Bolsa Família Reviewed by Bruno Nomura on segunda-feira, agosto 01, 2016 Rating: 5

Nenhum comentário:

Tecnologia do Blogger.