Movimento contrário à “ideologia de gênero” ganha força no Peru

“Con mis hijos no te metas” promove manifestações em várias cidades peruanas 
e reivindica a retirada do termo “gênero” do novo currículo educacional

por Bruno Nomura, de Piura, Peru

Criado no fim do ano passado, o movimento “Com mis hijos no te metas” quer a retirada do termo “gênero” do novo currículo educacional, aprovado pelo Ministério da Educação do Peru. Segundo um vídeo lançado na página do grupo no Facebook, o documento “distorce a sexualidade dos alunos” por meio de uma “colonização ideológica homossexual” que pretende “perverter a mente das crianças”.

O movimento realizou uma série de manifestações em 21 de dezembro nas principais cidades do país. Outro grande protesto está programado para o dia 4 de março, data próxima ao retorno às aulas nas escolas peruanas.

A polêmica gira em torno do enfoque à igualdade de gênero incluído no currículo, que toma como base teórica a ideia de que, apesar das diferenças biológicas, grande parte do que é considerado masculino ou feminino é construído socialmente todos os dias. Dessa forma, a intenção seria reconhecer o valor da pessoa humana, independente do gênero. Ainda segundo o documento, o estudante deve estar preparado para lidar com as diferenças, incluindo gênero e orientação sexual. Não há qualquer menção à homossexualidade.

O Esboço entrou em contato com representantes locais do movimento – ligados, no caso de Piura, a uma igreja evangélica. Eles afirmam que visam apenas à proteção das crianças do que chamam de “doutrinação” e que a educação sexual dos filhos é responsabilidade dos pais. Não estariam contra nenhuma minoria ou “opção” sexual, apesar de alguns dos cartazes colados pela cidade se posicionarem a favor do “desenho original” da família.

No fim de janeiro, o Ministério da Educação lançou um comunicado no qual explica que o enfoque na igualdade de gênero existe no currículo desde 2004, e que sua última reforma foi trabalhada durante 4 anos e envolveu mais de 50 mil pessoas. Em outras notas, o órgão reforça que não se consagra uma orientação sexual específica e que o objetivo é promover a igualdade.

Para a especialista em igualdade de gênero da ONG Centro Ideas, Cecilia Bustamante García, esses movimentos conservadores criaram o termo “ideologia de gênero” para aterrorizar as famílias e demonizar a diversidade. Ela acredita que o ensino de gênero é de suma importância porque a escola é o ambiente ideal para estimular a igualdade. “Devemos reconhecer a democracia, a tolerância, o respeito e, além disso, proclamar a dignidade e o valor do ser humano”, explica.

No dia 13 de dezembro, o presidente Pedro Pablo Kuczynski (PPK) afirmou em pronunciamento que não retrocederia “nem um milímetro” na reforma educativa do Ministério da Educação, que chamou de “prioritária”.

Peru conservador
Segundo censo de 2007, 81,3% dos peruanos são católicos e 12,5% são evangélicos – totalizando 93,8% da população seguindo o cristianismo no país.

O Peru é o 80º colocado no ranking do Fórum Econômico Mundial em igualdade de gênero. O Brasil ficou uma posição acima, em 79º. Foram 144 países analisados pelo relatório no ano passado.

Com relação à população LGBT, ao contrário do Brasil, o Peru não reconhece o casamento igualitário entre pessoas do mesmo sexo. Por outro lado, em janeiro deste ano, o presidente PPK assinou um decreto em que criminaliza a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero, uma das pautas atuais do movimento LGBT brasileiro.
           
Movimento semelhante
Em 2015, discussão semelhante sobre a chamada “ideologia de gênero” causou polêmica em Câmaras de Vereadores e Assembleias Legislativas de várias partes do Brasil. Em Londrina, o termo “gênero” foi retirado do Plano Municipal de Educação depois de debates acalorados na Câmara. À época, os votos das ex-vereadoras Elza Correia (PMDB) e Lenir de Assis (PT) foram vencidos pelos demais parlamentares, que cederam à pressão de grupos conservadores da cidade.

Apesar da exclusão, no ano passado, o movimento “Endireita Londrina” lançou uma petição virtual pela proibição do ensino de gênero nas escolas municipais. Representante do grupo, Filipe Barros utilizou o tema como bandeira eleitoral e foi eleito vereador com 4,2 mil votos. Em seu polêmico material de campanha, afirmava que a “ideologia de gênero” promovia sexualização a partir dos três anos de idade e que seria uma “porta aberta para a pedofilia”.


"O governo não pode impor ideologias que corrompam a saúde mental de nossos filhos", clamam cartazes em Piura, no norte do Peru | Foto: Bruno Nomura



Esta reportagem foi originalmente produzida para o Esboço, jornal laboratório do 2º ano de Jornalismo (matutino) da Universidade Estadual de Londrina, sob orientação do professor Fábio Alves Silveira. Colaborou Bia Botelho.


Movimento contrário à “ideologia de gênero” ganha força no Peru Movimento contrário à “ideologia de gênero” ganha força no Peru Reviewed by Bruno Nomura on quarta-feira, fevereiro 22, 2017 Rating: 5

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