Na crista da onda
Existem muitos surfistas e existe Sérgio Laus, especialista em encarar e vencer, a bordo de sua prancha, as
pororocas mais incríveis do planeta.
sobre esse frágil equipamento,
já deslizou por 11,8 quilômetros,
durante 36 minutos, nas águas do
Rio Araguari, na bacia Amazônica.
recorde mundial. Mas ele quer mais COLABORAÇÃO: OLDAIR DE OLIVEIRA FOTOS: WILLIAM LET/SURFANDO NA SELVA
As condições naturais do Brasil favorecem a prática do surfe?
Nosso País tem um litoral enorme. Como é muito extenso, tem várias condições de onda, boas e ruins, mas que proporcionam a iniciação da prática do surfe. É só olhar o cenário mundial: hoje temos representantes do Brasil nos circuitos mundiais e sempre chegando entre os primeiros. Dessa forma, ainda que as nossas ondas não sejam tão perfeitas, sempre conseguimos produzir excelentes atletas.
Para atingir esse estágio superior é preciso buscar outros mares?
Com certeza. As etapas do circuito mundial são realizadas em ondas que não existem no Brasil. São bem maiores, com força totalmente diferente. Portanto, tem de viajar para fora, fazer intercâmbio com outros atletas e países para aprimorar técnicas de surfar ondas com mais força e diferenciadas.
Já conseguiu surfar todas as pororocas do mundo?
Ainda não, mas estou em busca disso. Além da pororoca no rio Araguari, no Amapá, já encarei a Mascaret, no Sul da França, que acontece no rio Dordogne, na cidade de Bordeaux, e a do rio Quintang, na cidade de Hangzhou, na China. Essa é conhecida como a Dragão Negro. Mas ainda faltam surfar as pororocas do Alasca, Inglaterra, Malásia e Índia.
Tem alguma dessas como próxima meta?
Em 2010 meu objetivo é desbravar a pororoca do Alasca. Será algo totalmente novo para mim, com neve, icebergs, baleias. Vou correr atrás de patrocinador para viabilizar a expedição. Meus atuais parceiros apenas mantêm minha sobrevivência no esporte. Quando tem expedições, tenho que buscar reforço com grandes empresas, pois a logística e equipe é muito grande. Apesar do surfe ser um esporte individual, quando se trata de pororoca, se torna algo coletivo. São necessários, por exemplo, pilotos de jet ski e lancha para resgate e gerenciamento de risco, além da equipe de filmagem e de apoio, para registrar aquele momento e podermos mostrar depois. É uma forma de interagir e compartilhar um sonho. Afinal, não se trata de um sonho da nossa equipe, mas de várias pessoas que acabam vendo aquela aventura.
Quanto custa um projeto desse porte?
Para a expedição ao Alasca, vamos precisar de algo entre R$ 100 mil e R$ 150 mil. Se fosse no Brasil, precisaríamos de R$ 50 mil a R$ 70 mil para fazer um trabalho bacana. Na China, a aventura foi mais cara, em função dos altos custos das passagens aéreas. Ficou entre R$ 150 mil e R$ 200 mil. Para a Europa, caso da França e Inglaterra é mais barato que no Brasil, porque aqui a logística encarece, pois é preciso usar embarcações grandes e muita gasolina e diesel.
O Alasca é o seu maior sonho?
Tenho vários sonhos, pois não dá para sonhar e viver somente um. Quero, por exemplo, fazer novamente todas as pororocas do mundo, com condições e infraestrutura e com equipe para registrar e mapear tudo. O resultado será um grande documentário. Será um trabalho social, ambiental e de cunho científico.
 |
Familiar O surfista visita a regiao da bacia Amazônica pelo menos uma vez por ano |
Como você caracteriza as pororocas que já encarou?
Diria que a da França é a mais charmosa. A gente vai surfando ao lado de vinícolas, castelos. Tem charme especial. A mais perigosa e aventureira é a da Amazônia. É dentro da floresta, com ambiente selvagem e isolado, a 12 horas da cidade mais próxima. Nesses cantos remotos é importante ter controle para não fazer da diversão um pesadelo. Já a mais urbana e desafiadora é a Dragão Negro chinesa. Lá fui visto em ação por cerca de 500 mil pessoas.
Você também é autor de um livro...
Sim. Lancei o Surfando na Selva em 2006, pela Ediouro. Nele, conto minhas aventuras até o recorde mundial, ao surfar este ano (2009) 11,8 quilômetros em 36 minutos na pororoca do rio Araguari. Antes, o recorde já era meu, no meu rio. Em 2005, já havia surfado 10,1 quilômetros, em 33 minutos e 15 segundos, quando superei em mais de um quilômetro o inglês David Lawson, que detinha até então a melhor marca.
E a questão ambiental? Como isso faz parte do seu trabalho?
Tenho o meu lado de ambientalista. Por isso busco proteger a Amazônia no entorno da pororoca , levando desenvolvimento sustentável às populações ribeirinhas. Estou à frente do Instituto Pororoca, que é uma ong, com a qual sempre levamos doações de alimentos, roupas, medicamentos, trabalhamos com a população local e com as que visitam a região a importância de preservar aquele habitat. Além disso, promovemos palestras e exposições de fotos, onde buscamos estender esse tipo de discussão. Visito a região amazônica anualmente e cada vez está diferente, pois tudo que se faz aqui, tem interferência lá. É hora de parar e pensar, replanejar é controlar as ações destrutivas do homem. A natureza é inteligente. Se ela destrói, sabe o que destruir e sabe quanto tempo leva para regenerar. Mas o homem acaba interferindo nesse ciclo. PÁGINAS :: << Anterior | 1 | 2 |