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Fugindo do Altar


Passou um ano, uma década de relacionamento e o matrimônio parece algo distante no horizonte. Esse é o seu caso? Saiba que não está só e que é o fenômeno normal. Entenda o porquê


TEXTO: PAMMELLA DIAS
FOTOS: SHUTTERSTOCK

POR HORA, SUBIR AO ALTAR nem passa por sua cabeça, certo? Pois é! Assim como na sua vida, a maioria das pessoas colocou o casamento como segunda, terceira, quarta... a última coisa da lista de prioridades. Foi-se o tempo em que se namorava, noivava e casavase. Relacionamentos que duravam por longos períodos sem um comprometimento maior eram malvistos aos olhos de todos. Entretanto, isso foi há uns bons anos atrás. Hoje, já é natural encontrar casais que estão juntos a longa data e nem pensam em oficializar a união, apesar de levarem uma vida de quase casados.

E alguns números explicam o porquê do fenômeno. Há algumas décadas, a idade média entre os homens para se casar era de 25 anos, e a das mulheres 20. Hoje, só se cogita a palavra "altar" depois dos 29 para eles. Elas, ainda continuam com o sonho do véu e grinalda um pouco antes, aos 26 anos. "Com a vida moderna, as pessoas buscam primeiro a estabilidade financeira, para então pensar em casamento. E, na maioria das vezes, a situação está tão cômoda, que o casal acaba dissolvendo o sonho de casamento", afirma a psicoterapeuta Laura Guimarães de Andrade.

Igor Merzulli, 34 anos, é prova disso. Desde que conheceu Ana Carolina Tavares, 36, somam-se 11 anos juntos. Começaram o relacionamento ainda na faculdade. "Sempre pensamos em nos casar, mas os planos eram: primeiro sucesso profissional, depois o casamento. Hoje, apesar da estabilidade na carreira, ainda faltam outras metas para, então, oficializarmos a união. Agora, penso em comprar um apartamento para, quem sabe, morarmos juntos, ou, se ela preferir, só passar alguns dias da semana comigo. Tanto a Ana quanto eu gostamos de liberdade", declara Igor.

Casar ou comprar uma bicicleta?
A comodidade também é um dos pontos importantes no momento de decidir se casa ou "compra uma bicicleta". Na opinião da psicoterapeuta, as pessoas, sobretudo os homens, estão prolongando a saída da casa dos pais. "Primeiro eles querem gozar a liberdade e conquistar um espaço só deles. Só então pensam em compartilhar uma vida a dois de fato", diz. A isso se junta o fato de os relacionamentos terem se tornado mais abertos nas últimas décadas. Dessa forma, parceiros amorosos dormem na casa uns dos outros habitualmente e isso acaba por abrandar a ansiedade de dividir o mesmo teto.

Para alguns, o tempo de experiência a dois, ainda que na forma de namoro, é um selo de garantia de um matrimônio duradouro. É o caso de Rodolpho Oliveira, de 28 anos. Ele namora há quatro anos com Letícia Brandão, um ano mais jovem, e espera que, quando partir para o altar, tenham mais segurança no relacionamento do que os seus pais, que partiram para o divórcio quando ainda era uma criança. "Penso em casamento, constituir uma família, afinal, não vou morar eternamente com minha mãe. Mas, antes de tomar uma decisão, tenho de ter certeza que a escolha foi correta. Não quero me casar para, depois de algum tempo, me separar. Já sofri com o divórcio de meus pais e não quero isso para os meus filhos", revela.

Aliás, muitos casais estão desenvolvendo um medo do matrimônio em função do pânico de passar por um processo futuro de dissolução. E por mais que alguns digam que estão aptos para enfrentar uma separação, é muito difícil lidar com o rompimento. E quanto mais se fica junto, mais se ouve frases do tipo: "conheço pessoas que namoraram durante anos e se separaram logo depois do casamento e outras que namoraram meses e estão juntos há décadas."

É fato que existem casos desse tipo. Assim como tem sempre alguém que conhece um tio ou um avô que fumou a vida inteira e viveu 100 anos. Ambas as situações existem, mas são mais raras. Especialistas fazem questão de reforçar que o namoro é um período importante de aprendizado. Se no início de tudo a tendência é menosprezar os defeitos de cada um, com o passar do tempo, aprende-se a conviver com eles, cedendo em alguns pontos e se corrigindo em outros. Por outro lado, alguns casamentos findam-se rapidamente depois de um longo namoro quando ele deixa de ser um sonho comum aos dois e passam a ser uma cartada final para salvar um relacionamento já capenga. E aí, já pensou no modelo da bicicleta que irá comprar?

Inside |
Sem medo da separação
O Brasil é o país que melhor aceita o divórcio. É o que demonstrou uma pesquisa feita em 35 países por especialistas da Universidade de Granada, na Espanha. De acordo com o estudo, 85% dos brasileiros acreditam que a separação é a melhor saída quando o casamento vai mal. Apenas 12% manteriam o casamento mesmo em forte crise. No Japão, por exemplo, apenas 30% dos entrevistados disseram concordar com a separação. Índices similares foram observados nos Estados Unidos, Suécia, Nova Zelândia e Filipinas.
 
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